Naum leia


22/09/2011


Haja luz

 



Admiro ver tanta gente sem religião ou ,pior, sem crença. Religião todo mundo tem, até por educação, que é feio dizer que é ateu. Ninguem crê em Deus mas ninguém é ateu.

Fica um buraco imenso em mim quando esqueço Deus. É como um fingimento. Não creio em Deus porque sei que ele existe mas às vezes prefiro ele longe.

Já que não há distância que nos afaste dele, finjo existir somente. Finjo ter sido uma bactéria que evoluiu até ser um símio que evoluiu até ser homem. Donde vim como bactéria não sei.

O sol passa a ser só o sol, a terra volta a ser só a terra e eu sou só carne, sangue, hormônios e milhões de anos de evolução.

E o buraco que fica e tão grande quanto o que havia antes da criação. E é preciso que Deus venha de novo, passeie pelo meu vazio e diga novamente: haja luz!

E eu aguardo a hora em que ele pacientemente me molda da lama e me abraça e sopra um teco de vida em meu nariz e me põe num jardim
.
É isso que é o Gênesis. Se não for eu sendo criado ali, de nada serve o livro. E é isso que as pessoas sem religião não percebem.

Que se sua história não estiver contada - ainda que haja mais dúvida e mistério que lógica, resta o buraco.

E o buraco não é silencioso ou passivo. O buraco é o vácuo e o vácuo, tudo que ele faz é forçar a ser preenchido.

E o vácuo não atendido faz doer o espírito. O vácuo me faz endeusar qualquer coisa que eu julgue melhor ou mais sublime que eu.

Vejo a adoração aos ídolos da música ou do cinema ou dos esportes. A obra deles não vale uma piscada do humano mais reles, mas a gente se dobra até quase ficar de quatro em deferência a eles.

Há choro, gritos, desmaios. Vidas inteiras são dedicadas a essa adoração. Toda humilhação é pouca nessa  adoração que nem foi exigida pelos artistas.

Adoramos de graça e espontâneamente e até a contragosto deles, se for o caso. E esse impulso não é mais que o vácuo roncando dentro da gente.

Do que vejo e sinto, percebo que é nosso, humanos, querermos a existência de algo maior que nós, algo que não seja Deus.

Não consigo. Maior que eu só Deus. Não me atrevo a ser o melhor humano, mas acima de mim só Deus. Venero a beleza, o amor, a putaria, os homens de pau duro e a natureza, mas esse vácuo duro só Deus passeia nele.

Dobro o joelho quando o cara abre a calça e põe o pau pra fora, mas minha alma dobra é pra Deus. Se eu afasto Deus, não há homem nem esperma nem foda que me sacie.

E se Deus me recria, minha vida bíblica começa de novo e vai haver um dia que minha Sodoma vai arder e vou salgar sempre que olhar pra trás, de volta para o só desejo.

E vou lutar com Deus e machucar a coxa. E vou dar as costas de novo e ser escravo no Egito. E vou me fechar até ser recriado de novo, com novo sopro de vida.

E lamento profundamente que as pessoas esperem um sopro de vida de cantoras, jogadores, atores, roqueiros, pastores e polítiicos.

Quando afasto Deus, até fico aberto-só por rebeldia-mas não vem sopro algum. O Édem das divas é seco e falta saliva nos homens santos para um corpo novo.

Humilde reconheço em mim a falta de Deus. Sou como a criança doida para crescer que afasta as mãos dos pais para poder atravessar a rua sozinha. Criança doida impaciente, penso que sei tudo já, e que Deus é dispensável agora.

Pode não ser uma vida perfeita, a da crença cristã, nenhuma vida é, mas é suficiente para mim Deus existir.

A bactéria que deu origem à vida cientifica não sabe falar nada disso, sobre de onde ela veio e pra onde vai. A bactéria replica só.

Se Deus criou ela do cuspe eu não sei, provavelmente nem ela sabe, porque o fim de toda a evolução é o BigBang.

No meu BigBang Deus está lá, acendendo a explosão. Foi com suas digitais que Deus criou a bactéria. É imitando Deus que os símios parecem conosco.

E é quando eu crio que me vem a petulância de talvez ser como Deus. E a idéia é tão avassaladora que afasto Deus e sigo sozinho. E minha torre de babel cai só para eu clarear as idéias e saber que eu sou o criador, sim, o maior homem da face da terra, mas reles cuspe divino.

E que alegria poder dizer isso, que sou obra do cuspe e do sopro divino. Ainda que eu não seja linearmente feliz , vai sempre ser bastante.

E encerro esses pensamentos tortos sobre Deus repetindo palavras do meu santo padre  Fernando Pessoa:

“Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.”

 

Escrito por Feline às 23h23
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