Naum leia


05/09/2011


Com tanto homem lindo e jovem na parada, acabei lembrando que eu sou velho

A mistura de beleza e juventude é desconcertante, como sempre foi desde que o mundo é mundo. Mas nem sempre a gente é afetado. Eu fui.

 

Ter ido na parada gay de Goiânia fez de mim um cara mais cônscio do meu lugar no mundo. E o que percebi é que meu mundo passou.

 

Não digo isso com melancolia. Digo com maturidade. Digo com conhecimento, de mim e do que rola aí fora. Falo do que vi.

 

E o que eu vi me agradou muito. Me fez bem como o sentimento bom do dever cumprido. É fato consumado, o mundo que eu vi antes era pior que aquele que vi na parada.

 

Porque faltava ao meu mundo a alegria. Era luta, era enfrentamento, era rebeldia, era ganhar centímetro por centímetro na luta contra o preconceito e pela existência.

 

Agora é só alegria. Mais foda que beleza e juventude juntas é acrescentar a alegria a isso tudo. Alegria da mais pura e original, aquela sem motivo.

 

Vi gente alegre só porque estava viva e bem e tinha corpo. Alegria tão desprendida quanto o tesão que prego. E vi tesão também, e desejo e pose e escândalo. Mas acima de tudo, alegria.

 

(Claro, houve brigas, mas onda não as há, se há homens e cerveja juntos¿ )

 

Fui nessa parada meio a contragosto. Meu namorado foi praticamente obrigado. Clima ruim no início, aquela gente toda espalhada, a música dos carros misturada.

 

Daí olhei pro lado. E comecei a sentir certa diferença. Vi uma foto do meu ex-amante beijando o namoradinho, na câmera de uma amiga. Dessa vez, o namoradinho tem a idade dele ou menos.

 

Bem diferente de mim, carta mais que marcada no baralho. Porque agora ele vai viver um relacionamento em bases iguais. Por mais que ele amasse todos os meus sinais de maturidade no corpo, agora somente é que ele vai ter oportunidade de conviver com um igual.

 

Agora que ele vai se ver em alguém.

 

E havia alegria neles dois posando pra foto. E não pude mais que ficar alegre por eles. Ele no mundo dele agora, o mundo da beleza, da juventude e da alegria. E eu distante.

 

Devia ser eu lá, eu pensei, mas é o certo. É o adequado-que é melhor que o certo. Sou inadequado pra quem quer ser somente feliz. E tem horas que tudo que a gente precisa é de ser feliz, e não do amor.

 

E o que eu tenho é amor e tesão e carne e pelos e desperto o mesmo nos outros, constantemente. Não pertenço ao dia-a-dia. Sou inadequado para as horas de normalidade.

Mas a parada só teve efeito depois que um conhecido nos conduziu parada afora. Dançando, rindo e pulando, comparando o peito dele peludo com o meu, brincando com todo mundo, pegando na minha bunda, que a alegria bateu forte em mim.

 

Não era só protesto, nem só beleza, nem só juventude. Era alegria também. Porque o que a gente conquistou com cara feia, eles comemoram dançando.

 

E agora penso que eles estão certos. É o certo e o adquado agora. Rosnar e lamentar ficou pra trás comigo. Não há porque orgulho desse passado raivoso.

 

Vi meninos se beijando aos montes. Vi meninos fazendo poses acintosamente sexuais. Vi meninos se tocando. E eles não pareceram nem pervertidos nem decadentes. Pareceram naturais.

 

E me senti naturalmente velho. Elegantemente velho. Prazeirosamente velho, belamente e musculosamente velho, mas velho.

 

Não o velho acabado. Mas o velho que olha os meninos e vê que as coisas tem jeito sim. E que o futuro não precisa repetir Berlim, de capital gay à capital nazista. Talvez o futuro seja como Amsterdã, ou como São Francisco, cada vez mais gays ou libertárias.

 

Porque foi isso que eu vi. Da beleza, da alegria e da juventude emanava liberdade. De ser gay, de ser jovem e até, por isso minha alegria, de ser velho.

 

Porque agora sou livre para não precisar imitá-los mais, os jovens. E eles são livres para não nos imitarem mais, os velhos.

 

Voltei pra casa leve, com meu marido leve também, na minha moto que nunca antes havia sido tão leve e macia ao rodar.

 

E o vento batia forte nos pelos do peito. E envolto pelas coxas do meu marido, apoiado nele, encaixado na virilha dele, e com a imagem na cabeça de todos os homens lindos e jovens que eu vira, eu soube na hora: Deus sabe o que faz. E faz bem.

 

Deus salve os gays.

Escrito por Feline às 21h26
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Homem, de 36 a 45 anos
MSN - feline_hxh@hotmail.com

Histórico