Naum leia


10/08/2011


Pra não dizer que não falei da aids

 



Demorei a tocar no assunto HIV aqui no Blog,  justamente por não querer reforçar a associação gay-aids. Ou, pior ainda, insistir em  sexo-gay-morte.

Vai longe o tempo em que ter aids era decreto de morte. Com remédios e tratamento na rede pública, pouca gente ainda morre de aids - só se quiser.

Mas uma coisa não mudou: a associação aids-medo. Se ainda se morre cedo por causa da aids o motivo é o medo. Medo de fazer o exame, medo de descobrir. Medo de mais uma discriminação (além de gay, passivo, promíscuo, … ). Medo dos outros saberem. Medo.

(Tive experiência atuando direta e indiretamente com Ongs-aids. Então desde sempre ando com aidéticos e sou tido por aidético. Medo de ser mal falado, esse eu não tenho mais)

Além do medo do exame, que implica em medo de estar contaminado (e, mais preocupante, em atraso num tratamento que é bastante simples), outra coisa me chama a atenção quando o assunto é A Doença.

Me assusta o uso moralista que se faz dela. Assim como no final do século 19 a sífilis era a doença que castigava com a morte os sexualmente ativos, a aids é, desde o final do século passado, a executora de quem curte sexo. Principalmente de quem é gay e curte muito sexo e o faz com frequência invejável.

Esse perfil apocalíptico do sexo nos acompanhou século afora. E olha que a ciência descobriu recentemente que os caras que tomam os remédios imediatamente após o diagnóstico têm 76% de chance de trepar sem contaminar ninguém.

O mesmo não se pode dizer de quem nunca fez o exame e não sabe se tem ou não. Sem medicação, a possibildade dele infectar o parceiro é 100%.

Fechar os olhos é nossa reação mais primitiva ao medo. A gente fecha os olhos e finge que aids é problema só dos gays pervertidos, ou promíscuos, ou drogados, ou jogados no mundo, ou solteiros, ou pobres, ou ricos, ou dos que frequentam sauna, ou dos que fazem banheirão ou cinemão, ou dos adeptos de suruba. Enfim, é coisa de todo gay menos eu.

Some-se a isso o complexo de vítimas que padecemos. Nunca ouvi de alguém “peguei aids transando sem camisinha”. Parece que ninguém pega aids. Mas ouço sempre “fulando me passou a doença”.

A aids só vitima. Todo mundo pega aids por culpa de outra pessoa. Dá a impressão que todo mundo foi estuprado quando se contaminou.

Já falei aqui sobre a tragédia que é esse comportamento de vítima ao qual nos apegamos tanto. Somado ao medo e ao receio de saber, a epidemia de aids corre solta como sempre desde seu início.

E como se não bastasse, humanos que somos, criamos uma categoria sexual para as pessoas infectadas. E o que hà pouco era A Doença passou a se chamar O Presente e o tal negócio tem nome americano para o bom português “trepar sem camisinha com o intuito de se contaminar” e ganhar o dito Presente (ainda que ninguém vá fazer exame para conferir se recebeu ou não O Presente).

Me estranha menos que haja essa categoria sexual que o fato de haver quem ache que fechar os olhos e falar mal dos outros vai salvar sua pele da aids.

A aids ( e as demais doenças venéreas ) é fato para quem tem vida sexual. Resta saber como lidar com isso. Se em pânico, se com sobriedade ou se com tesão.

Sorte nossa que haja remédio e tratamento à disposição. O tratamento vai nos dar vida longa para continuarmos a depreciar quem trepa e gosta. Vida longa para vivermos como vítimas, como mulheres amedrontadas, como bons moralistas que somos. Deus salve os Gays.

 

Escrito por Feline às 22h04
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