Naum leia


06/08/2011


A boa má fama

 



Descobri que tenho uma má fama aqui em Goiânia. Não era pra menos: eu gay, eu assumido, eu másculo, eu evangélico, eu funcionário público, eu casado ( e amando ) com um ex-garoto de programa, eu tendo vivido um casamento a três, eu puto, desfilando aos beijos com um amante e eu suspeito de ter HIV.

Confesso, sou culpado de tudo. E como faço abertamente e certas coisas faço espetacularmente tinha mesmo de ganhar fama. É uma boa má fama e me enche o peito de orgulho.

Comecei emputecendo o sagrado casamento. Casei aos 27 com um ex-garoto de programa. Anos depois, em meio ao consensual e inescapável casamento em regime de semi-aberto, agregamos um terceiro, que era amante do meu marido.

Passamos por amantes sem conta, do meu e do lado dele. Cada amante tem uma história. Cada paixonite nossa difunde nossa fama por aí. Cada conversa deles depois da trepada fala de nós em algum momento.

Porque na hora de falar dos outros somos todos moralistas. Somos puto no fazer e moralistas no falar. Quem se esbaldou na nossa cama, se comentar, vai falar mal também.

Há gays, coitados, que acham que me taxar de promíscuo é xingamento. Porque junto com a idéia boa de ser putão, existe a idéia escura e pesada e moralista de que quem é promíscuo tem HIV.

Porque, religiosos de repente, entram na onda de acreditar que todo mundo que peca (?)  tem de pagar, então quem trepa demais paga pegando a doença. A peste gay, como já foi perjorativamente chamada pelos héteros moralistas.

Como sou promíscuo publicamente, publicamente sou dado como aidético (sim, usam essa palavra até hoje). Se eu fosse promíscuo só entre quatro paredes, estaria lado a lado com eles todos na boate, fazendo cara de bom moço e torcendo pra balada acabar logo pra eu poder trepar bêbado ou drogado com o primeiro que balançar o pau pra mim na rua.

Dentre todos os meus crimes de putaria, o pior é eu gostar de ser puto. Porque há um consenso de que ser gay é ser puto, mas há um consenso muito mais pesado de que não se deve gostar disso.

A gente revira os olhos e os intestinos ao trepar e torce o nariz ao falar sobre isso numa rodinha de amigos pessoas do bem. Deve ser o tal de “faço sexo só socialmente”.

Um círculo restrito de ex-trepadas acaba se comunicando e contando as coisas e (surpresa) um e outro até já ficaram comigo (ou com meu marido, ou com meu amante). E lá vem a má fama.

Daí vem o medo do HIV. Mas é um medo a posteriori. Na hora nem levam camisinha. Daí ficam preocupados porque, também a posteriori, ficaram sabendo que eu, ou meu amante ou meu marido ou algum outro que fodeu comigo tem HIV.

Aí a má fama vira pânico e sempre que ouvem meu nome da boca de alguém dão o alerta: cuidado, ele tem má fama. Má fama de ter HIV.
(Da má fama de ninguém andar com camisinha no bolso não se comenta - porque sempre sou só eu que levo camisinha. E se pedem pra trepar sem, nunca sou eu que faço o convite. Mas a fama, essa sim, é minha)

Contra a fama de ser puto eu não luto e até alimento, mesmo a custa de exageros. Quanto à fama de ser soropositivo, tamém não nego. Mesmo porque não faria diferença alguma.

Se eu fosse mulher, a má fama poderia barrar todos os relacionamentos possíveis. Quanto a nós homens, má fama é qualidade da masculinidade.

Homens não têm má fama de pegadores. Porque em homens, ser pegador é uma qualidade. Só entre os gays pode existir alguém que não se orgulha do próprio pau e de usá-lo. Só entre os gays - mas não todos, a putaria é algo feio de se admitir. Numa roda de héteros, se gabar da putaria é até socialmente desejável.

Congrega homens narrar as putarias - mesmo se são um desastre risível. Parece que essa é a primeira coisa que o gay perde ao ser gay. O orgulho das coisas certas.

Daí passa a ter orgulho da cueca de marca, de falar três palavras em inglês, de ouvir a cantora da moda e saber cantar sua música em inglês. Daí passa a zelar pela sua imagem, a frequentar os lugares certos, a burilar seu perfil socialmente aceito, a procurar um namorado sério.

O passo seguinte é ser moralista em público. Enquanto a roda de héteros se diverte ouvindo as narrativas das putarias de cada um, a roda dos gays se diverte com comentários azedos sobre as roupas e a vida dos outros gays.

É quando somos mais femininos. É quando perdemos o senso de masculinidade que viramos moralistas. É quando somos menos homens que atribuimos fama a outras pessoas.

Porque meu orgulho de ser puto é essencialmente e radicalmente masculino. O orgulho de minha má fama me torna um homem melhor.

Eu, de má fama, sou aberto e pronto pra vida e penso que todos os homens são feitos pra mim. E cada homem que goza em mim me põe mais no topo da humanidade. E cada elogio dos amantes me torna mais santo e quanto mais gemem comigo mais homem eu sou.

Perdoem-me os bons. Prefiro ser homem. A fama? as mulheres que se preocupem com isso, principalmente as que querem se casar.

 

Escrito por Feline às 18h25
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