Naum leia


16/06/2011


A minha defesa de amado

 

O amor cansa também, de tão egoísta. Descobri que sou indigno de muito amor. Sou a pessoa errada para se amar demais porque acho que o amor é problema (e delícia) só de quem ama.

 

Culpar o objeto do amor pelas danações do amor é fraqueza de espírito. Se morro de amor por alguém, quem morre sou eu e não é ela que me mata. Isso faz toda a diferença.

 

Quando está forte o amor em quem ama, morrer de amor é um suicídio romântico, um sacrifício voluntário a um deus delicioso. Quando desanda o amor, é a pessoa amada quem mata o amador, por rejeitá-lo ou não se comportar como exige os delírios amorosos do amador.

 

De admiração e veneração espontânea, vira cobrança ser amado. O amador começa a lhe lembrar o quanto ele fez ou sofreu por você, como se isso fosse um eterno acerto de contas. E dura (creiam-me!) o acerto de contas até o último adeus do ex-casal.

 

As loucuras que ele fez, se diz que fez por você, acabam sendo culpa sua. Ele fez as loucuras mas quem as infligiu foi você. E quem vai lembrá-las eternamente (das torturas infligidas) , mais ainda que das benesses do amor, é o amador ferido de morte no coração.

 

Se dói o coração DELE por causa do amor que ELE sente, é você quem inflige a tortura. Ser amado passa da condição mais passiva possível para logo logo se tornar uma ação calculada e sempre maldosa ou desprezível.

 

Ora, então chega a ser criminoso que sofram por amor a você. Ainda que não se exija sacrifício, ainda que não se dê margem à delírio algum do amado, se ele ama você, o crime é seu.

 

Há sempre perdão para quem ama. Quem ama pode tudo, até mesmo atribuir a outra pessoa a responsabilidade pelas loucuras dele que te ama.

 

Não é raro que os amados morram nas mãos dos amadores, tão louco o amor. A negativa do amado, o seu jeito sempre errado de reagir ou responder aos arroubos do amador, tão criminosos que são, liberam o amador para a vingança do amor desperdiçado.

 

Ora, se não danço conforme a música do amador, sou o mais vil dos homens então. Mereço ou apanhar ou morrer justamente. Por amor, que loucura.

 

Eu que até então era só um objeto, um mero e passivo repositório do amor alheio, agora viro inimigo do amor ao não corresponder à altura ao sentimento do amador.

 

E quem avalia a performance do objeto amado é o filhodaputa do amador, em sua loucura amorosa. Ele resolveu amar, ele foi em frente, ele fez sacrifício pelo amor (que era dele e ninguém tasca) e no fim quem parece que agiu, e errado, o tempo todo fui eu, o amado.

 

O até então objeto do amor ganha vida e alma e passa a existir como essa entidade viva e má, porque fria ao insistente amor do amador.

 

De passivo ídolo de adoração a demônio inimigo do amor e, portanto inimigo do amador.

 

Se em sangue, se em dramas públicos, se em morte, o amador se arma de todos os direitos do mundo para vingar esse objeto de amor reticente a tão grande sentimento alheio por si.

 

É o que chamam de crime passional, briga de amor, essas coisas que enchem a delegacia a tal ponto que se criou uma lei inteira sobre o assunto, a Maria da Penha.

 

Sou indigno, garanto. Desafiando as regras desde o nascimento, vou desafiar e me negar a realizar a encenação de amor esperada pelos amadores.

 

Se me apresento puto ou insensível é porque danço é a contradança, ou melhor, a anti-dança, sob a melodia melosa, dramática e pesada da música tocada pelo amador enlouquecido de amor.

 

Anti-danço até sem pensar que danço, tão avesso a fórmulas, esquemas, costumes e tradições com que me afligem os que vivem em sociedade, os que amam ou os que comungam algo comigo, mesmo a cama.

 

Contra o amor meloso, sou puto de cima em baixo, a alma inclusa. Sou rebelde até às amarras do amor quando não é o amor que EU sinto. Amarras, só a do amor que sinto. Já bastam. Passam da conta, até.

 

O amor dos outros, que os outros o resolvam. Mal posso administrar o meu, o amor que sinto, quanto mais o amor que sentem ou dizem sentir por mim.

 

Perdoem-me os idealistas. Amem-me sim, mas não me responsabilizem por isso. Sou aberto ao amor, mas avesso a correias e regras de correspondência.

 

Não que eu seja duro ou seco como parece. Sou é incapaz assumido. Mal dou conta do que sinto. Querer , ainda por cima, que eu me responsabilize e pene pelo que sentem por mim é exigir demais de mim. É me forçar ao erro.

 

Se eu morrer por amor, creiam-me, morro pelo amor que sinto. É essa danação que se chama amor que me mata. A pessoa amada minha, perdoem-na. Meu amor escapou de mim e é cruel comigo e , até mesmo com ela.

 

Mas quero morrer de amor sabendo disso. Que morro e que é por amor. Não qualquer amor, mas o Meu amor, o que sai de mim, preenche o universo e é tão grande que poderia bem me matar.

 

É o amor que sai da gente que nos mata. Se me vingo matando aquele infeliz que não soube ou não quis corresponder a esse amor é porque meu amor é tão grande e poderoso que, irritado por não causar reação digna do seu tamanho e poder, destrói e apaga tudo que não seja ele mesmo o amor.

 

Vítima, quem sacrifica e mata por amor. Vítima, quem é amado e não deu conta de corresponder e por isso morre ou é castigado.

 

O algoz é só o amor, esse inimigo da paz humana. Não fosse o amor a delícia sem tamanho que é, seria fácil identificá-lo como causa mais provável da futura extinção humana.

 

Mas sendo a delícia que é e o poder que é, aqueles que o sentem – contra-senso dos contra-sensos – sentem enfim o que é ser real e divinamente humano, os loucos.

 

O amor é coisa de loucos. Não me responsabilizo por nada. Culpa alguma sinto. Mas que eu procuro eu procuro o amor, ainda que não seja o meu, mas ao menos o de alguém por mim.

 

O amor pode ser uma tortura e arruinar a vida, mas vida então pra quê?

Escrito por Feline às 19h26
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